INFORMAÇÃO E COOPERAÇÃO NAS COMUNIDADES DE
DESENVOLVIMENTO DE SOFTWARE LIVRE: UM PANORAMA DO CENÁRIO BRASILEIRO
FERNANDO S PARREIRAS*
(fparreiras@b2i.com.br)
ANTONIO B O SILVA**
(abraz@netic.com.br)
(jbastos@netic.com.br)
(wbrandao@netic.com.br)
Com
a explosão do software livre, milhares de desenvolvedores de sistemas, de todas
as partes do mundo, vêm se organizando em torno do desenvolvimento de um
ambiente que centralize e facilite a troca de informações relacionadas à
produção de softwares por esta comunidade. Este assunto vêm sendo estudado sob
várias denominações como invenção coletiva, “gift economy”, etc. No Brasil,
embora a discussão sobre software livre venha ganhando vulto, iniciativas neste
formato não têm alcançado proporções que possibilitem a participação, em massa,
dos envolvidos. Este ensaio analisa, sob a perspectiva do fluxo de informação e
criação do conhecimento, o modelo americano de sucesso de desenvolvimento
destas comunidades, avaliando seu impacto no cenário nacional e propondo
adequações à realidade brasileira.
Palavras-chave: software livre, comunidades
de prática, redes sociais, invenção coletiva, engenharia de software.
INTRODUÇÃO
A
explosão do software livre fez com que milhares de desenvolvedores de sistemas,
de todas as partes do mundo, se organizassem em torno do desenvolvimento de um
ambiente que centralizasse e facilitasse a troca de informações relacionadas à
produção de softwares por esta comunidade. Um exemplo bem sucedido nos EUA é o
projeto SourceForge. No Brasil, com a
crescente discussão envolvendo o software livre e seu impacto no
desenvolvimento econômico e redução das desigualdades sociais, surgiram
iniciativas equivalentes como os projetos CódigoLivre
e Colaborar.
Diante
deste contexto, este trabalho pretende discutir a seguinte questão: Quais são
os instrumentos de geração e codificação da informação e do conhecimento
presentes atualmente em comunidades virtuais nacionais e internacionais de
desenvolvimento de software livre?
Portanto,
este trabalho tem como objetivo geral avaliar os projetos SourceForge, CódigoLivre
e Colaborar sob a perspectiva dos
instrumentos de colaboração entre os diversos atores envolvidos, assim como
propor, quando for o caso, adequações à realidade brasileira. Para tanto,
fez-se necessário: relacionar os diversos conceitos e relações que os cercam;
identificar os instrumentos de informação presentes na literatura; elucidar a
estrutura de funcionamento dos projetos; e analisar os projetos sob a ótica da
informação.
Para
tanto, foi realizada uma pesquisa bibliográfica para definir os conceitos e
relações que cercam o problema descrito acima,
e para descrever os projetos em questão, foi realizada uma pesquisa
documental tendo com principal fonte os documentos disponíveis na web.
As
próximas seções trazem uma revisão da literatura sobre software livre, invenção
coletiva, comunidades de prática e redes sociais. Em seguida, é apresentado um comparativo entre as
iniciativas americanas e brasileiras, do ponto de vista da informação e os
resultados alcançados.
SOFTWARE LIVRE E INVENÇÃO COLETIVA
Muitos
pesquisadores estudam o software livre a partir do conceito de invenções
coletivas. Nesse caso, o desenvolvimento de uma nova tecnologia se dá com a
construção de redes sociais para a troca de informações científicas e
tecnológicas. Não se trata de um fenômeno recente. MEYER (2003) sustenta que,
ao contrário, este é um fenômeno recorrente no capitalismo, especialmente
quando as novas tecnologias começam a oferecer grandes oportunidades econômicas
mas o seu desenvolvimento é ainda incerto. Acrescentando outras motivações,
como fazer simplesmente algo interessante ou ser socialmente bom, o autor
apresenta vários casos como o dos altos-fornos (blast furnaces) no distrito de Cleveland na Grã-Bretanha, na segunda metade do século XIX, ou ainda o caso
do processo de produção de aço Bessemer (que deu origem a um forno com o mesmo
nome do processo) nos EUA no mesmo período e, mais recentemente, o software
livre. Nos primeiros casos, havia patentes envolvidas, mas criaram-se
associações para sua utilização (Patent
Pool, Bessemer Association, respectivamente). Houve um aumento do número de
usuários e os avanços, melhorias e adaptações eram divulgadas em publicações,
podendo ser amplamente utilizados.
Outro
caso citado, e mais próximo do assunto aqui discutido é o Homebrew Computer
Club que funcionou entre 1975 e 1985. Ele foi um dos clubes, talvez o mais
importante, criado por pessoas interessadas em computadores (interesse sendo
aqui um conceito amplo, que abrange desde pessoas interessadas em desenvolver
produtos com valor comercial até pesquisadores interessados na física por trás
do chip. Daí o termo usado ser hobbyist, aquele que pratica um hobby, uma
atividade de lazer). Teve origem na Universidade de Stanford logo depois da
invenção do microprocessador, mas antes do surgimento da indústria nele
baseada. O grupo tinha um moderador e uma publicação (newsletter). Os encontros
eram abertos e havia muitas trocas de informação, e numerosas empresas (a
Apple, por exemplo) foram criadas por alguns de seus membros. Era uma área do
conhecimento aberta, que oferecia muitos desafios, mas também incertezas.
Muitos de seus membros descrevem suas experiências como a de participantes
diretamente envolvidos em uma nova revolução industrial (MEYER, 2003). Outros
pesquisadores interessados em estudar as condições de cooperação e troca de
informações descreveram o clube com sendo o produto da ética da contracultura
existente na região - Califórnia - desde os anos 1960, como por exemplo,
SAXENIAN (1996), que compara o sucesso do Vale do Silício e a estagnação da
região da Rota 128 (Massachusetts), atribuindo grande parte das diferenças de
comportamento econômico à formação de redes. Essas envolviam, tanto as pessoas
para a troca de informações e conhecimentos, quanto, mais tarde, as empresas
(surgidas mais tarde) que usavam mecanismos de subcontratação e divisão do
trabalho (ao contrário da verticalização das empresas da Rota 128), com conseqüências
sobre o desenvolvimento local. Segundo a autora, esta estrutura flexível
permitiu que, após a crise dos anos 80, que atingiu as duas áreas, o Vale do
Silício se recuperasse rapidamente e superasse a outra área.
Assim,
o clube foi uma importante instituição que ofereceu suporte à invenção
coletiva, permitindo, em seguida, um vigoroso crescimento econômico. Esse
resultado teve como conseqüência a diminuição da presença de pessoas no clube,
tanto porque se tornaram homens de negócios, quanto pela existência de
interesses comerciais que não podiam ser compartilhados como anteriormente.
Entretanto havia deixado dois legados: em primeiro lugar, as empresas
continuaram a trabalhar em rede, o que permite outra forma de troca de
conhecimento e, em segundo lugar a cultura aberta que preconizava que a
informação deveria ser disponível gratuitamente continuou dominante na região.
Essas características iriam impulsionar o desenvolvimento da Internet e do
software livre.
As
invenções coletivas têm, em comum, algumas características que facilitam o
surgimento de comunidades e redes de interesse. A mais importante delas está
associada à incerteza do empreendimento, o que incentiva os engenheiros e
pesquisadores a partilharem seus problemas e descobertas. O compartilhamento
não impede o surgimento de empreendimentos comerciais em torno das
oportunidades criadas pelas novas tecnologias ou produtos, ao contrário. O
processo gera externalidades positivas a partir do efeito multiplicador das
redes: os ganhos de conhecimento de cada um aumentam com o tamanho da rede,
assim como as perspectivas de ganhos financeiros. As redes são mantidas pelos
interesses comuns e pela confiança e o conhecimento é acumulado ao longo de sua
existência. Assim, outras denominações têm sido usadas, especialmente para a
análise de produtos ligados ao software livre e a Internet, como commons-based peer production ou, ainda,
gift economy, que tem esse nome em
função da criação de uma obrigação não escrita de quem recebeu o “presente” de
devolvê-lo, de alguma forma, no futuro, como no caso da troca de presentes
entre amigos nos aniversários.
O
fenômeno do desenvolvimento do software de fonte aberta pode fazer parte desse
conjunto denominado invenção coletiva e, portanto, como um processo auto-organizado,
de difícil compreensão porque as suas propriedades são difíceis de serem
previstas com o uso de modelos tradicionais. As análises de redes sociais vêm
sendo usadas para estudar esse processo, uma vez que os desenvolvedores (atores
ou membros da rede) estão, de alguma forma, conectados. Os atores compartilham
suas descobertas por causa de um comportamento ético e de valores culturais
comuns. O custo do compartilhamento é baixo, pois por exemplo, no caso do
software livre, a publicação dos códigos resulta que futuros desenvolvimentos
ou, mesmo correções, retornem em benefício do autor original e o risco de ser
usado por alguém que não contribua é baixo. Nesse caso, a rede reduz o custo de
busca por informações que melhorem o produto de cada participante e todos
oferecem suas informações para o grupo porque o investimento de resolver o
problema de forma isolada seria excessivo frente aos riscos associados a novos
empreendimentos. Não se pode negar que o sucesso da rede está associado ao
entusiasmo dos seus participantes.
Outros
autores vêm estudando a evolução do software livre vis-à-vis os estudos já realizados com a mesma intenção para os
softwares proprietários. Para estes, há inclusive leis para descrever seu ciclo
de vida ao longo do tempo. Embora o escopo desses estudos fuja do interesse
desse artigo, há uma associação entre o desenvolvimento do software livre e
suas comunidades nos últimos 10/12 anos e o desenvolvimento da Internet como
ela é entendida e utilizada hoje, isto é como um sistema técnico aberto e
global e foi essa estrutura em rede que permitiu o surgimento das comunidades
(redes) de desenvolvedores interessados no software livre (SCACCHI).
COMUNIDADES DE PRÁTICAS E REDES SOCIAIS
É
possível considerar que comunidades de prática existem desde o tempo em que se
percebeu que era possível obter um benefício coletivo através do
compartilhamento de experiências, habilidades e conhecimentos individuais, para
potencializar a elaboração de planos e ações. Isso ocorre desde os primórdios
da evolução humana e tem evoluído ao longo do tempo. Assim, o conceito de
comunidades de prática não é algo totalmente novo.
Etienne
WENGER (1998), pesquisador que criou o termo “comunidades de prática” em 1991,
observa que estas existem naturalmente em qualquer organização, não estando,
entretanto, vinculadas especificamente às estruturas hierárquicas ou
institucionais. WENGER (1998) considera que existem alguns aspectos específicos
que caracterizam as comunidades de prática e as diferenciam de outras formas de
organização. O fato de possuir fronteiras flexíveis (a filiação é aberta), por
exemplo, a difere de uma típica unidade funcional de uma empresa, e
potencializa as oportunidades de aprendizagem em situações concretas.
Outro
aspecto considerado é que o que mantêm uma comunidade de prática unida não é a
tarefa específica a ser cumprida, como ocorreria em uma equipe, mas sim o
conhecimento compartilhado, a participação e o interesse pessoal de cada
membro. Além disso, o autor ressalta que a sustentabilidade de uma comunidade
de prática não se encontra numa simples rede de relacionamentos, mas sim na sua
identidade como comunidade e na identidade que confere a seus membros através
da prática compartilhada, gerando um processo coletivo de aprendizagem.
No
que se refere à formação de comunidades no âmbito organizacional, comunidades
de prática podem se configurar (1) dentro das unidades e departamentos
formalmente constituídos, (2) entre essas unidades, ou (3) agregando membros de
fora da organização. No primeiro caso, a comunidade se mobiliza quando
indivíduos de uma mesma unidade produtiva da organização compartilham
experiências ao enfrentarem problemas coletivamente. No segundo caso, membros
de equipes que fornecem ou recebem informações de outras equipes formam
comunidades de prática com membros de outras unidades, desenvolvendo uma rede
de compartilhamento de ações e relacionamento que transpõe a segmentação
departamental. No último caso, as comunidades são formadas por indivíduos de
uma mesma área de atuação profissional, mas de empresas diferentes ou, até
mesmo, pessoas de áreas diversas de atuação, mas que possuem algum tipo de laço
dado pela relação entre suas empresas.
Nesse
ponto, é interessante analisar de que maneira se definem os limites de uma
comunidade de prática. Em primeira instância, pode-se dizer que o que delimita
a fronteira de uma comunidade de prática é a sua competência, a qual se forma
através da prática e do aprendizado coletivos. Essa competência cria e
fortalece a identidade da comunidade que, por sua vez, molda a identidade dos
membros da comunidade (WENGER, 1998). As identidades são elementos que possuem
importância crucial na estrutura das comunidades, pois constituem a chave para
a definição do que é realmente importante compartilhar, das pessoas com as
quais pode-se compartilhar conhecimento, e para a própria identificação dos
membros entre si.
Entretanto,
é preciso considerar o fato de que as pessoas não fazem parte de uma única
comunidade o tempo todo e de forma exclusiva. Alguns membros desempenham o
papel de intermediadores, visto que fazem parte de mais de uma comunidade.
Dessa forma, esses elementos enriquecem a troca de informação e conhecimento
das comunidades, pois carregam elementos de uma comunidade para outra.
As
comunidades de prática se constituem como redes de conhecimento, onde seus
agentes compartilham experiências e conhecimentos de forma criativa, com o
objetivo de promover novas abordagens para resolução de problemas (WENGER &
SNYDER, 2000). Diferentemente de outras estruturas como as redes informais e os
grupos de trabalho, as comunidades de prática se propõem a desenvolver as
competências dos seus membros e a construir e compartilhar conhecimentos. Além
disso, elas têm a seleção de seus membros vinculada a critérios de expertise ou
de interesse pelo tema tratado pela comunidade.
Como
já foi dito, as comunidades de prática não são algo totalmente novo.
Entretanto, o crescimento da rede mundial de computadores e sua utilização em
larga escala pelas empresas como meio de comunicação barato, rápido e flexível
foram os grandes catalisadores do desenvolvimento do que se tem chamado de
“comunidades virtuais de prática”.
Alguns
aspectos estão relacionados a esse conceito. Segundo RODRIGUES (1994), o
conceito de “comunidade virtual” compreende um cenário onde a tecnologia assume
um papel fundamental, e onde a comunicação se constitui como centro do
fenômeno, potencializando a produção e a difusão de bens culturais e
informacionais. Este processo tecnológico ocorre de forma globalizada e é
organizado em função do desenvolvimento de dispositivos de informação como um
reflexo da ideologia comunicacional.
O
papel da tecnologia nesse contexto fica claro quando se analisa a crescente
disponibilidade de canais de comunicação como fator potencializador de criação
e desenvolvimento de comunidades virtuais de prática. Nesse caso, de fato, o
advento da internet constitui um marco, como a rede que viabiliza a construção
de outras redes.
METODOLOGIA
Foram
escolhidos, arbitrariamente, três sítios responsáveis por hospedagem de
projetos de software livre no Brasil e nos Estados Unidos, conforme a tabela 1.
Cada um dos sítios é detalhado mais
adiante, nesta seção. Embora arbitrária, a escolha se faz representativa, visto
que a iniciativa americana é uma das maiores do gênero no mundo, em número de
usuários. As iniciativas brasileiras são as que mais se aproximam em estágio de
desenvolvimento comparável com a experiência americana.
A partir da escolha da amostra, foi
realizada uma visita aos sítios dos três projetos entre 04/2004 e 05/2004. Os
sítios foram avaliados baseado na existência de instrumentos de colaboração
entre os participantes, relatados em NEUS (2001) e REINHARDT (2003). Estes
instrumentos são:
(1) Taxonomia
para navegação: permite aos usuários a navegação entre os projetos,
identificando suas diversas propriedades, os desenvolvedores envolvidos e as
competências dos respectivos desenvolvedores;
(2) FAQs:
acrônimo inglês para perguntas mais freqüentes. Apresenta aos usuários ou
desenvolvedores uma lista das dúvidas mais freqüentes, seguidas das respectivas
respostas;
(3) WIKI:
Consiste nos instrumentos que habilitem qualquer leitor alterar o conteúdo do
documento. É baseado na confiança existente entre os desenvolvedores e na
cultura da comunidade.
(4) Perfil dos
desenvolvedores: permite o armazenamento das competências e preferências de
cada desenvolvedor, com o objetivo de criação de um catálogo.
(5) Critérios
para associação e inclusão de projetos: permite a criação de uma comunidade
homogênea, de objetivos e finalidades em comum.
(6) Repositório
de falhas: permite o armazenamento dos relatos de falhas encontrados nos
projetos hospedados.
(7) Sistema de
controle de versão (CVS): Oferece um ambiente para controle das versões dos
códigos-fonte criados e mantidos pelos desenvolvedores de uma dada comunidade.
(8) Fórum:
Consiste em um espaço compartilhado, onde os desenvolvedores postam mensagem e
lêem as mensagens dos outros.
(9) Grupo de
notícias: semelhante ao fórum. A principal diferença é a ênfase na organização
cronológica das mensagens.
(10) Lista de
assinantes: Lista de assinantes de desejam receber notificações sobre a
atualização de um determinado item.
(11) Chat:
viabiliza a troca de mensagens instantânea entre os interessados por um dado
assunto.
O
SourceForge é o maior sítio mundial
para desenvolvimento de softwares de código aberto, provendo hospedagem
gratuita para milhares de projetos. Sua missão é enriquecer a Comunidade de
Código Aberto (Open Source Community)
provendo um local centralizado para os desenvolvedores controlarem e gerirem o
seu desenvolvimento. O sítio oferece
uma gama de serviços para a comunidade e para a gestão dos projetos ali
hospedados que vão desde ferramentas web para o desenvolvimento colaborativo de
sistemas (CDS), disponibilização de servidor para hospedagem e divulgação dos
projetos, ferramentas para suporte ao gerenciamento dos projetos (Tracker), listas de mensagens e fóruns
de discussão, ferramentas para manipulação do conteúdo do projeto e para
gerenciamento de downloads e acesso externo ao projeto, ferramentas de banco de
dados e de controle de versão, até mecanismos para classificação dos projetos
para aparição em mecanismos de busca. O sítio é mantido e gerido por uma equipe
de administradores, programadores e pessoal de suporte dedicada a essa
atividade. Qualquer pessoa pode solicitar a inclusão do seu projeto no sítio. A
pertinência do projeto será analisada manualmente por um membro da equipe.
Tabela 1. Características dos
sítios analisados
|
|
SourceForge |
CodigoLivre |
Colaborar |
|
Fundação |
1999 |
2001 |
2004 |
|
Número
de projetos |
82.719 |
769 |
12 |
|
Número
de usuários |
864.771 |
6.139 |
235 |
|
Nacionalidade |
Estados Unidos |
Brasil |
Brasil |
|
Possui
seções de acesso pago? |
Sim |
Não |
Não |
|
Recursos |
privados |
Privados (ONG) |
Públicos |
|
Objetivo |
Prover um local centralizado
para os desenvolvedores controlarem e gerirem o desenvolvimento de Softwares
de Código Aberto. |
Fomentar o uso do software livre
no Brasil, oferecendo aos desenvolvedores todas as ferramentas necessárias ao
bom andamento de um projeto. |
Reunir os esforços em software
livre, na esfera federal, estadual e municipal. |
Fonte: os autores
O CódigoLivre
nasceu com uma proposta distinta. No início de 2001 a estrutura para
desenvolvimento cooperativo em software livre que encontrava-se em
desenvolvimento na Unidade Integrada Vale do Taquari de Ensino Superior
(UNIVATES) desde 2000 foi liberada para a comunidade brasileira, com o nome de CódigoAberto. Em dezembro de 2001, já
com mais de 100 projetos registrados e mais de 800 colaboradores, o portal
havia ganho visibilidade nacional e internacional, e teve seu nome mudado para CódigoLivre. O CódigoLivre compromete-se a sempre manter seu próprio software
utilizado no portal como livre, e a não criar estruturas proprietárias que
acabem obrigando os projetos que nele estão hospedados a procurarem outro
portal. O principal objetivo é fomentar o uso do software livre no Brasil,
auxiliando os desenvolvedores, oferecendo-lhes todas as ferramentas necessárias
ao bom andamento de um projeto, ao mesmo tempo em que oferece à comunidade
usuária um portal onde podem obter softwares de qualidade.
Já o Colaborar é um local para o desenvolvimento colaborativo de códigos
e dispõe de facilidades como ferramentas de busca, indicadores sociais dos
projetos, voluntariado, fórum de discussão e compartilhamento de documentos,
entre outras. A principal função é reunir os esforços em software livre, na
esfera federal, estadual e municipal. Esse espaço é elo entre desenvolvedores,
gestores públicos, organizações públicas e sociedade, e reúne informações de
interesse dessa comunidade. São aceitos para hospedagem no ambiente do Colaborar projetos de desenvolvimento em
software livre que sejam de interesse da administração pública e aprovados pelo
grupo gestor do portal softwarelivre.gov.br, segundo critérios públicos.
A
existência de instâncias como esta não altera a análise realizada sobre
invenções coletivas e comunidades de prática, ao contrário. Elas fazem uso da
tecnologia de compartilhamento mais ampla e barata disponível – a Internet –
para aumentar o potencial de desenvolvimento do software livre.
RESULTADOS
O resultado da análise comparativa
entre os sítios está ilustrado na tabela 2. Constata-se um grau avançado de uso
dos instrumentos de colaboração por todos os projetos, destacando o projeto CódigoLivre no cenário nacional. Sua
semelhança com o projeto SourceForge
se dá pelo fato de ambos utilizarem a mesma infra-estrutura tecnológica. Neste
aspecto, o Colaborar deixa ainda a
desejar, estando em fase de desenvolvimento.
Tabela 2. Instrumentos de
colaboração presentes nos projetos avaliados
|
|
SourceForge |
CodigoLivre |
Colaborar |
|
Taxonomia
para navegação |
SIM |
SIM |
SIM |
|
FAQ |
SIM |
SIM |
NÃO |
|
WIKI |
NÃO |
NÃO |
NÃO |
|
Perfil
dos desenvolvedores |
SIM |
SIM |
|
|
Critérios
para associação e inclusão de projetos |
SIM |
NÃO |
SIM |
|
Repositório
de falhas |
SIM |
SIM |
SIM |
|
Sistema
de controle de versão |
SIM |
SIM |
SIM |
|
Fórum |
SIM |
SIM |
SIM |
|
Grupo de
notícias |
SIM |
SIM |
SIM |
|
Lista de
assinantes |
SIM |
SIM |
NÃO |
|
Chat |
NÃO |
NÃO |
NÃO |
Fonte: os
autores
Todos os projetos se concentram em
instrumentos de comunicação assíncronos. Portanto, nenhum dos projetos suporta
a troca de mensagens instantâneas. Outro instrumento ausente é o WIKI. Embora
relatado na literatura como solução sem custo de transação para geração do
conhecimento, ainda sofre algumas restrições de confiança por parte destes
projetos. No caso do projeto do governo brasileiro, ele aparece em outro sítio
(http://interagir.softwarelivre.gov.br/twiki/bin/view).
CONCLUSÃO
Os
desafios para implantação do modelo proposto são muitos, perpassam questões de
busca de apoio governamental, de mobilização das organizações e pessoas em
torno da proposta até questões tecnológicas e administrativas de construção e
manutenção da plataforma operacional do projeto. Entretanto, do ponto de vista
informacional, as iniciativas brasileiras caminham na direção correta,
observando técnicas de sucesso utilizadas nos modelos estrangeiros. Contudo,
faz-se necessária a ampla divulgação, entre as comunidades de usuários e os
meios acadêmicos, dos projetos analisados neste trabalho, apresentando as
vantagens da solução nacional.
O
impacto proveniente da adoção desse modelo é grande. Ao se constituir uma
comunidade de âmbito nacional para reflexão, promoção, criação, manutenção e
divulgação de iniciativas de código aberto, se cria condições para a diminuição da dependência das organizações e
usuários nacionais dos softwares
proprietários e, conseqüentemente, para redução de custos referentes ao
licenciamento desse tipo de produto.
Além
disso, promove-se o desenvolvimento local, ao se criar uma demanda regional por
atividades de consultoria e suporte em ferramentas de código aberto. Políticas
públicas objetivando a redução da desigualdade social e tecnológica geradora do
fenômeno da exclusão digital podem ser ampliadas, se beneficiando dos produtos
e serviços desenvolvidos por essa comunidade. Organizações de âmbito comercial
podem viabilizar seus projetos de implantação ou renovação da infra-estrutura
tecnológica, as instituições científicas podem ampliar suas pesquisas e
profissionais e usuários finais terão acesso a produtos e serviços gratuitos de
informação.
Existem
outros aspetos presentes nos sítios avaliados que não foram tratados neste
artigo. Portanto, faz-se necessária a continuação desta linha de pesquisa,
abordando, por exemplo, aspectos como a audiência dos sítios em questão. A
audiência determina o alcance do projeto, o que reflete no número de
desenvolvedores e softwares hospedados.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COLABORAR
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Acessado em: 06 jun. 2004.
CODIGO
LIVRE. Incubadora virtual de projetos em software livre. Disponível em <http://codigolivre.org.br>. Acessado
em: 07 jun. 2004.
GFORGE
CDE: Collaborative Development Environment. Disponível em <http://gforge.net>. Acessado em: 06 jun. 2004.
MEYER, Peter B. Episodes of collective invention.
Working Paper 368, august 2003. U.S. Department of Labor, Bureau of Labor
Statistics, Office of productivity and Technology. Washington. DC.
NEUS, A. Managing Information Quality in Virtual
Communities of Practice. In: Pierce, E. & Katz-Haas, R. (Eds.) Proceedings
of the 6th International Conference on Information Quality at MIT. Boston, MA:
Sloan School of Management.
REINHARDT, Christian. Collaborative Knowledge Creation
in Virtual Communities of Practice. Innsbruck: University of Innsbruck, Faculty
of Social and Economic Sciences, 2003. 142p. (Masters of Social and Economic
Sciences)
RODRIGUES,
Adriano Duarte. Comunicação e cultura: a experiência cultural na era da
informação. Lisboa: Presença, 1994.
SAXENIAN,
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Culture and competition in Silicon Valley and Route 128. Harvard University
Press.
SCACCHI , Walt Understanding Open Source Software
Evolution. Institute for Software Research, University of California, Irvine,
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Sérgio Amadeu, CASSINO, João. Software livre e Inclusão digital. Ed. Conrad,
2003.
SOURCEFORGE.NET.
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VARIAN,
Hal e SHAPIRO, Carl. A Economia da Informação: como os princípios econômicos se
aplicam na era da Internet. Rio de Janeiro, Ed. Campus, 1999.
WENGER, Etienne. Communities of Practice: Learning,
Meaning and Identity. Cambridge University Press, 1998.
WENGER, E., SNYDER, A. W. Jr. Communities of practice:
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