| SISTEMAS
HIPERMÍDIA FACILITANDO ANNA
FRIEDERICKA SCHWARZELMÜLLER * INTRODUÇÃO As novas tecnologias têm contribuído com as drásticas mudanças que vêm contempora-neamente ocorrendo na história da humanidade. Segundo Marilena Chauí (2002, p. 278) "Os instrumentos tecnológicos são ciência cristalizada em objetos materiais ... destinam-se a dominar e transformar o mundo e não simplesmente a facilitar a relação do homem com o mundo". O termo "tecnologia" considerado como conhecimento humano, reflete uma aproximação alternativa que considera tecnologia como um dos componentes do meio socio-cultural (HEIDEGGER, 1977). Admitindo-se que as tecnologias são ao mesmo tempo instituídas e instituintes de um novo modo humano de ser, não se deve considerá-las como simples instrumentos; mas, sim, como estruturantes de uma nova razão e, portanto, de novos modos de aprender. Tecnologia pode ser entendida como competência e talento humanos utilizados para superar restrições biológicas do homem, estendendo suas habilidades. A idéia mais comum é conceituar a tecnologia como o oposto a tudo que possa estar contido na própria natureza humana. Assim, por exemplo, não imaginamos o lápis ou a roupa que usamos, como uma tecnologia. Para Pierre Lévy (1993), as tecnologias habitam nosso cotidiano de tal forma que já fazem parte de nossa "natureza humana", então, podem ser pensadas como "tecnologias da inteligência", e portanto se articulam com nosso sistema cognitivo de tal forma que não conseguimos pensar sem seu auxílio. Como ferramentas do conhecimento, as tecnologias têm um papel constitutivo e servem como instrumentos do raciocínio, que ampliam e transformam as maneiras precedentes de pensar, interagindo com o sistema cognitivo principalmente sob duas formas (LÉVY, 1993): (a) transformam a configuração da rede social de significação, cimentando novos agenciamentos, possibilitando novas pautas interativas de representação e de leitura do mundo; | ||
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| (b) permitem novas construções, constituindo-se em fonte de metáforas e analogias. A palavra oral, a escrita, a cibernética, a informática são exemplos de tecnologias intelectuais: são também práticas sociais, na medida em que criam signos, possibilitam ou limitam modos de expressão e intercâmbio, pautam as interações, constróem universos de sentido. Cada nova tecnologia constrói um mundo de novas relações sígnicas, cada sistema semiótico abre novos caminhos para o pensamento, um mundo não apenas concreto, mas também mental, conceitual. O paradigma da teoria cognitiva está baseada nas seguintes faculdades humanas: · percepção (faculdade de reconhecer formas, objetos e situações), · imaginação (faculdade de fazer simulações) e · manipulação (faculdade de manejar e remanejar o ambiente). Rumelhart (1981, p. 190) assegura que "o que torna possível o pensamento abstrato, lógico, é a existência de tecnologias intelectuais externas aos sistemas cognitivos humanos". Várias pesquisas desenvolvidas na área da psicologia cognitiva, têm demonstrado que não existe uma faculdade humana identificada como sendo a "razão". A dedução formal ou raciocínios indutivos, não se desenvolvem sem a ajuda de um certo número de tecnologias intelectuais, sistemas de codificação simbólicos, gráficos, processos de cálculo, e só operam com a ajuda de ferramentas exteriores ao sistema cognitivo humano (lápis, papel, tabelas e diagramas). Segundo Pierre Lévy (1993, p. 127): A razão não seria um atributo essencial e imutável da alma humana, mas sim um efeito ecológico, que repousa sobre o uso de tecnologias intelectuais variáveis no espaço e historicamente datadas. De acordo com as novas teorias da arquitetura do sistema cognitivo humano, é através da ativação automática ou semi-automática de esquemas, modelos, e associações da memória de longo prazo, onde as informações estão estruturadas em redes associativas e esquemas, que se desenvolve um certo tipo de pensamento racional ou crítico. Raciocínios lógicos são processos controlados complexos e demandam um grande esforço da nossa atenção consciente (memória de curto prazo). O homem sem suas tecnologias recorre espontaneamente a um pensamento de tipo oral, centrado sobre situações e modelos concretos, já que o pensamento lógico é recente e ligado à escrita e ao tipo de aprendizagem escolar adotado (HAVELOCK, 1996). Piaget destaca três estágios básicos no processo evolutivo das estruturas cognitivas na construção dos primeiros esquemas de natureza lógico-matemática: através de ações | ||
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| sensório-motoras e exercícios de repetição espontânea chega-se ao domínio e generalização da ação (estágio pré-operatório); o segundo estágio caracteriza-se pelo aparecimento das operações, as ações em pensamento, ainda dependente dos objetos concretos para que as ações se constituam em conceitos (estágio operatório concreto); e finalmente o estágio das operações sobre os objetos, já não dependendo mais de ações concretas ou de objetos concretos, é a constituição do pensamento puramente matemático (PIAGET, 1982). O processo de aprendizagem é desenvolvido concomitantemente, através de representações mentais que permitem a transposição da ação sensório-motora para a ação abstrata. Os esquemas, generalizações no plano da ação concreta, evoluem para conceitos, generalizações no plano mental, e as ações para operações através da tomada de consciência. Os modelos da psicologia cognitiva consideram que o conhecimento está sempre em metamorfose que são continuamente modificados e raramente são definitivos. Para Lévy, o advento da rede faz com que o computador deixe de ser o centro e sim um componente incompleto da rede universal. Ele atribui uma dimensão coletiva à inteligência: Não são apenas os especialistas mas a grande massa das pessoas que se comunicam, aprendem e produzem conhecimentos de maneira colaborativa em sua atividade cotidiana, trabalhando na construção e na disposição do imenso hipertexto da World Wide Web (LÉVY, 1999, p. 106). À luz destes princípios pode-se avaliar os processos de criação e transmissão de informações. O intercâmbio de mensagens, a comunicação, propriamente dita, conforma um jogo simbólico e interativo que reformula o contexto comunicativo e favorece o desenvolvimento de inteligências, a mudança de mentalidade e o avanço social. Este é um aspecto importante do desenvolvimento cognitivo que não depende exclusivamente de construções mentais individuais, pois conforme Piaget (1982, p. 216): "A inteligência humana somente se desenvolve no indivíduo em função de interações sociais que são, em geral, demasiadamente negligenciadas" Muito se tem discutido a respeito da utilização das tecnologias em ambientes de aprendizagem, mas elas têm se apresentado ainda como simples ferramentas de suporte, quando o que se busca é que tenham um papel fundamental no próprio desenvolvimento de novas capacidades cognitivas do indivíduo, ainda hoje não imaginadas, com conseqüências sobre a própria natureza da construção do conhecimento. Na busca de novos modelos pedagógicos, computadores cada vez mais poderosos favorecem o aparecimento de ferramentas mais sofisticadas de apoio ao ensino, como sistemas de autoria e de hipertexto, utilizando multimídia e inteligência artificial. | ||
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| Uma das tecnologias mais utilizadas com finalidades educacionais é a dos sistemas hipertexto ou hipermídia. Estes sistemas se tornaram uma nova possibilidade para a produção e disseminação de informações, pois permitem criar, anotar, unir, e compartilhar informações a partir dos multimeios (texto, gráfico, som, vídeo e animação), proporcionando o acesso às informações de uma forma associativa e não linear. O livro tem sido tradicionalmente o principal meio de armazenamento do conhecimento. As informações são geralmente ordenadas em páginas seqüenciais para serem lidas de modo linear. Ao contrário dos livros, os sistemas hipermídia podem representar uma coleção de arquivos interconectados em uma rede. Os usuários são livres para progredir, ou navegar, através do conhecimento armazenado no sistema utilizando vários caminhos distintos e não seqüenciais, cujas ligações foram de alguma maneira estabelecidas pelo projetista. Hoje, a Web (BERNERS-LEE, 1994) é o sistema hipermídia mais conhecido. A independência de plataforma e a possibilidade de agregar novos recursos e serviços aos documentos apresentados na Web, facilitam a execução de vários recursos pedagógicos - incluindo simulações e interações. Neste trabalho, se procurou caracterizar a hipermídia como uma interface capaz de facilitar, estimular e colaborar no processo de transformação da informação em conhecimento, descrevendo suas aplicações, e focalizando seu uso na educação. É feita uma síntese da história do surgimento do conceito e do seu desenvolvimento até a concepção da Web que popularizou a Internet, tornando esta imensa rede de dados e informações, numa interface indispensável ao meio educacional. O QUE É HIPERMÍDIA Hipermídia é a denominação genérica para sistemas de representação de conhecimento onde diversos elementos de informação podem ser articulados de diferentes maneiras, de acordo com as diferentes perspectivas dos usuários do sistema. Através de links1 a hipermídia oferece mecanismos para se descobrir as ligações conceituais entre seções de assuntos relacionados. Alguns autores conceituam "hipermídia" como o resultado da integração de "hipertexto" com "multimídia", distinguindo portanto as duas tecnologias. Porém, hoje a distinção entre os dois termos "hipertexto" e "hipermídia" não se torna mais necessária devido às crescentes facilidades na comunicação de informações multimodais, através das mais variadas tecnologias. Neste trabalho os dois termos são utilizados indistintamente. Embora o termo "hipermídia" subentenda, pela definição tradicional, uma maior abrangência com relação às maneiras de expressar o conhecimento, ele pode ser considerado simplesmente uma reavaliação do termo original "hipertexto" em conseqüência da evolução tecnológica. | ||
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| Smith (1988, p. 817) definiu hipertexto como: uma abordagem para o gerenciamento de informação na qual os dados são armazenados em uma rede de nodos conectados por ligações. Os nodos podem conter texto, gráficos, som, vídeo, assim como código fonte ou outras formas de dados. Pode-se então, considerar o hipertexto como uma forma de organização do texto, da escrita e da leitura, onde não existe uma ordem única que determine a seqüência em que o documento deverá ser acessado. Figura 1 Exemplo de ligações e nós num sistema hipertexto
Um sistema hipertexto é na verdade uma rede de informação constituído de nodos (os conceitos) e ligações (as relações). Os dados são organizados como segmentos separados, porém inter-relacionados, de informações. A Figura 1 acima ilustra a estrutura de uma rede hipertextual, onde cada palavra em negrito é uma ligação para um outro nodo de informação. As setas indicam o nodo alvo de cada ligação. Um nodo usualmente representa um único conceito ou idéia que poderá estar contido em uma ou mais telas de informação. O nodo origem da relação é chamado de referência e o nodo destino é chamado de referente. São também freqüentemente chamados de âncoras. O conteúdo de cada nodo é exibido pela ativação das ligações, que podem ser bidirecionais, e portanto, facilitar o processo da busca de informação. Esta estrutura "nodo-ligação" na base de conhecimento hipertextual, permite ao usuário percorrer um espaço de informação utilizando as ferramentas de navegação. O conteúdo de um nó pode ser apresentado por um sistema baseado em frames ou em janelas sendo que cada uma destas técnicas apresenta suas vantagens para determinados conteúdos. | ||
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| Um conceito interessante é o de anotação que possui um tipo de ligação especial, estabelecendo uma interligação com uma pequena quantidade adicional de informação. Anotações são muito semelhantes a notas de rodapé em texto tradicional e podem ser implementadas como janelas pop-up que desaparecem assim que o usuário solta o botão do mouse e podem ser acessadas através de um ícone. O modo de armazenamento de um hipertexto, utiliza uma estrutura associativa que reproduz de forma semelhante o modelo vigente da estrutura da memória humana, podendo assim, tornar-se seu complemento. Se comparada às estruturas clássicas, esta organização em rede favorece o estabelecimento de estruturas mais ricas e mais complexas que permitem todas as formas de navegação através dos múltiplos nós interligados (LE COADIC, 1996, p. 59-61). Um hipertexto representa um conjunto de diversas leituras possíveis a partir do discurso dado, segundo a ênfase, interesse ou associação de cada leitor, considerando que a interpretação do aluno é mais importante do que aquela do autor ou especialista (EKLUND, 1995), para que aquele construa seu conhecimento de acordo com seu entorno semântico. Assim, um ambiente hipermídia oferece novas possibilidades de acesso a grandes e complexas fontes de informações. A vantagem em relação a um documento linear é que no documento não-linear existe uma capacidade de organizar componentes de informação de diversas maneiras, dependendo das diferentes visões e demandas do usuário. O modelo hipermídia incentiva o autor a criar referências e modularizar suas idéias, embora também seja mais difícil decidir qual a melhor maneira de particionar adequadamente as informações. Algumas vantagens de um modelo hipermídia: · a interface proporciona facilidades de navegação em grandes espaços de informação; · anotações em um documento podem ser feitas em tempo real; · informações não estruturadas podem ser organizadas em hierarquias múltiplas; · unidades de informação podem ser estruturadas de várias maneiras permitindo que o documento tenha múltiplas funções; · partes do mesmo documento podem ser referenciadas de vários lugares, as idéias podem ser expressas com pouca sobreposição ou duplicação; · as referências estão embutidas no documento tornando a informação consistente; · vários autores podem cooperar na criação de um mesmo documento. | ||
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| Embora se considere esta tecnologia ideal para a construção do conhecimento de modo contextualizado e interdisciplinar, existem problemas para os quais os usuários de sistemas hipermídia devem estar atentos: · Desorientação - o usuário poderá sentir-se "perdido no hiperespaço", ou não ser capaz de encontrar a informação que tinha certeza que se encontrava em algum lugar no sistema. Esta desorientação tem tendência a aumentar proporcionalmente com o tamanho e a complexidade do hipertexto. Este problema compõe pesquisas atuais para desenvolvimento de ferramentas para visualização de estruturas, e pode ser corrigido com a apresentação de algum tipo de mapa. · Sobrecarga cognitiva - alguns autores consideram que o processo de tomar decisão de quais ligações seguir provoca uma carga cognitiva adicional, que por outro lado pode ser considerada benéfica uma vez que determina aprendizagens mais sólidas e significativas. Pela característica de simular a capacidade da memória humana no que diz respeito à organização e recuperação de informações, esta tecnologia pode estender a representação do conhecimento dentro de uma aplicação de sistemas inteligentes através da rede relacional. Com isto a hipermídia pode ser utilizada para dar suporte na resolução de problemas, apresentando ao usuário uma representação manipulável do espaço do problema. UM POUCO DE HISTÓRIA Apesar de sua implementação tecnológica ser recente, o conceito de hipertexto vem de longa data. Conforme citado por Cláudia Dias (1999, p.270), em 1588, a obra "Le diverse et artificiose machine del Capitano Agostino Ramelli", já apontava para o hipertexto, descrevendo uma "roda de leitura" cujo objetivo era apresentar um engenho que permitia a consulta simultânea de vários livros. Deve-se enfatizar que desde aquela época já havia a preocupação com a recuperação de informações. Vannevar Bush, desde 1938, diante do crescente volume de dados que deviam ser armazenados e organizados para que outros pesquisadores pudessem utilizar as informações de maneira rápida e eficiente, também vivia preocupado com a recuperação de informações. Ele procurava resolver o problema que enfrentava na agência de Desenvolvimento e Pesquisa Científica do Governo Norte Americano, onde coordenava o trabalho de aproximadamente seis mil cientistas. Em 1945, Bush (1945) esboçou um dispositivo mecanizado denominado "Memex" no clássico ensaio "As We May Think", que se tornou um marco na história do hipertexto. Neste ensaio, Bush explica que o Memex permitiria o | ||
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| acesso rápido e não-linear a diversas unidades de informação multimídia interligadas. A máquina de Bush não pôde ser implementada. Bush acreditava que a mente humana não funciona de forma linear, e sim por associação e apesar de considerar muito difícil replicar artificialmente o processo mental humano, dizia que os homens seriam capazes de adquirir algum conhecimento a partir do seu processo de armazenamento e recuperação de documentos. Em 1960, Theodore Nelson (1965) desenvolveu as idéias que formaram a base do seu grande projeto denominado Xanadu (www.xanadu.org), através do qual aspirava criar uma rede eletrônica, hipertextual, instantânea e universal de publicações. Segundo Lévy (1993, p. 29): Milhões de pessoas poderiam utilizar Xanadu, para escrever, se interconectar, interagir, comentar os textos, filmes e gravações sonoras disponíveis na rede, anotar os comentários, etc... Xanadu, enquanto horizonte ideal e absoluto do hipertexto, seria uma espécie de materialização do diálogo incessante e múltiplo que a humanidade mantém consigo mesma e com seu passado. Em 1963, Engelbart (1963) publicou "A Conceptual Framework for the Augmentation of Man´s Intellect ", onde afirmou que o computador poderia "aumentar" o pensamento humano. O objetivo de Engelbart era criar, entre o homem e o computador, um ambiente comunicacional intuitivo, metafórico e sensório-motor, para substituir o contexto abstrato, até então oferecido ao usuário. Os pontos fortes do Augment eram as ligações entre diferentes arquivos e as inúmeras facilidades que favoreciam o trabalho colaborativo, além de uma melhor interface entre o usuário e o computador. Para Lévy (1993, p.52) o objetivo de Engelbart era "o de articular entre si os sistemas cognitivos humanos através de dispositivos eletrônicos inteligentes". Em 1965, Ted Nelson (1965) criou o termo "hipertexto", para explicar a idéia de leitura/escrita não-linear em sistemas informatizados. Neste ano Engelbart demonstrou o seu sistema NLS (oN Line System), primeiro sistema hipertexto realmente operacional, que usava uma base de dados com conexões associativas hipertextuais. A partir desta demonstração várias pesquisas começaram a ser desenvolvidas, e os sistemas mais conhecidos foram: o KMS, o HyperCard, o NoteCards e a própria Internet que adquiriu dimensões mundiais depois da criação da World Wide Web - interface hipertextual da Internet - proposta por Tim Berners-Lee (1994), em 1989. Novos desenvolvimentos em programação para a Web possibilitaram a produção e a disseminação de documentos hipertexto pela Internet. Em 1993, a Internet estava apenas começando a despontar como a rede mundial de comunicação, e Lévy (1993, p.117) já a considerava "... a infra-estrutura do ciberespaço, | ||
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| novo espaço de comunicação, de sociabilidade, de organização e de transação, mas também novo mercado da informação e de conhecimentos". ASPECTOS COGNITIVOS DA HIPERMÍDIA A ciência cognitiva contemporânea, tem desenvolvido teorias à respeito da estrutura ou organização do conhecimento na memória humana. Estas teorias e modelos de organização são derivadas da neurologia (redes complexas de neurônios, axônios, dendritos, sinapses, transmissores químicos), da psicologia (representações proposicionais, associações de idéias, esquemas), e da inteligência artificial (redes semânticas, regras, "frames", "scripts", cálculo de predicados). Uma maneira de descrever o conhecimento humano é através de pequenos trechos de informações conectados, de alguma maneira, a outros trechos de informações, compondo assim uma rede semântica. Uma rede semântica é composta de nodos (fatos ou conceitos) e ligações (relações). Estas ligações podem ser rotuladas para indicar atributos e tipos, sendo que esta informação constitui a semântica da rede; "se não existirem ligações rotuladas, tem-se uma rede mas não uma rede semântica" (CARLSON, 1991, p. 137). Estas ligações não são somente indicadores de que existe uma conexão entre dois nodos relacionados, ao contrário, constituem uma parte intrínseca da formação dos conceitos e idéias. Muitas destas teorias, suportam as idéias de Bush, que tentou desenvolver um sistema de informações que operava associativamente. Em seu artigo, ele afirma que a memória: ... opera por associação. Com um item em seu poder, ela aceita instantaneamente o próximo que é sugerido pela associação de pensamentos, de acordo com alguma intrincada teia de trilhas mantidas pelas células do cérebro... (BUSH, 1945, p. 243). Segundo Jonassen (1991), o que Bush estava discutindo era a teoria da aprendizagem associativa. De acordo com estas concepções, a aprendizagem é a reorganização das estruturas do conhecimento. Estas estruturas são uma representação da organização de idéias em nossa memória semântica. As idéias são freqüentemente referidas como esquemas. Na teoria dos esquemas, a aprendizagem é a acumulação e organização das estruturas do conhecimento. Cada estrutura existe como um objeto, idéia, ou evento, e também como um conjunto de atributos que se conectam às outras estruturas de conhecimento. À medida que se aprende, somam-se novas estruturas e conexões, adicionando informações às já existentes ou alterando estas estruturas através de um processo de reestruturação. A reestruturação também envolve o agrupamento de estruturas de conhecimento em procedimentos, ou esquemas. Neste contexto, o conhecimento existe | ||
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| em uma memória semântica representada por uma rede de conceitos inter-relacionados conhecida como rede semântica. Pode-se considerar o hipertexto como um sistema de informação para suportar pensamento e comunicação. O processo de pensamento não constrói novas idéias seqüen-cialmente. Ao contrário, atua em várias frentes ao mesmo tempo, desenvolvendo e rejeitando idéias em diferentes níveis e cada uma relacionando-se e contribuindo com outras. Segundo Fiderio (1988, p. 238) "... o hipertexto imita a capacidade do cérebro em armazenar e recuperar informações através de ligações referenciais para um acesso rápido e intuitivo ...". Patricia Carlson também afirma que: os aspectos virtuais do hipertexto imitam o cérebro humano particularmente na qualidade associativa da memória. Como uma ferramenta, o hipertexto não molda somente uma realidade externa mas o interior da mente, proporcionando novas maneiras de "ver" e "sentir" o ambiente de informação. (CARLSON, 1991, p. 134). Considerando estes pressupostos, vários pesquisadores afirmam que o hipertexto pode funcionar como um modelo da teoria dos esquemas, onde cada nodo constitui um esquema que é associado com outros nodos em uma estrutura associativa. Portanto, sistemas hipermídia são particularmente úteis por que refletem o modelo de aprendizagem baseado em esquemas. Greenfield (1987) considera que cada meio de comunicação apresenta características que o tornam mais adequado do que outros para a disseminação de determinados tipos de informação. Isto influencia o processo cognitivo ao atuar sobre os sentidos, ativando conjuntos específicos de habilidades responsáveis pelo processamento dessas informações. Portanto, as mídias desempenham papéis complementares no processo de aprendizado, o que leva a acreditar que o processo de aprendizagem pode ser favorecido pelo uso de sistemas hipermídia. Lindstron (1995) afirma que a "comunicação monomídia" limita o processo de comunicação, por não considerar os outros canais pelos quais naturalmente o ser humano envia e recebe informações. Ele ainda considera que usando hipermídia pode-se trabalhar os seguintes fatores: associação multissensorial, informação dinâmica e baseada no tempo, feedback (resposta do usuário) e interação, personalização e definição de objetivos, flexibilidade e capacidade de alterações, criatividade e experimentação, que ampliam as possibilidades de atuação pedagógica. | ||
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| A tecnologia hipermídia deve ser considerada como um poderoso processador de idéias, pois oferece ao aluno um controle quase completo sobre as atividades de aprendizagem, permitindo a escolha de diferentes caminhos a serem percorridos através do material didático. A utilização desta tecnologia imprime à aprendizagem uma característica de exploração ou descoberta, pela capacidade de acessar as informações rápida e relevantemente, pela seleção da direção a ser tomada. Estes sistemas também estimulam processos de integração e contextualização de uma maneira não encontrada em uma técnica de apresentação linear, pela necessidade dos estudantes seguirem um pensamento não linear. Por esta razão, alguns pesquisadores consideram estes sistemas como "sistemas de aprendizagem" pois as informações transmitidas são absorvidas através de processos cognitivos de assimilação da informação. CONCLUSÃO A hipermídia trouxe uma nova maneira de escrever que pode ser usada para organizar e disseminar informações, de qualquer área do saber, facilitando sua assimilação pelo sujeito cognitivo. Considerando os aspectos cognitivos associados a esta tecnologia é interessante que profissionais das áreas de gestão de informações, comunicação e educação aprendam a lidar com a hipermídia com o objetivo de: ... aproveitar todo seu potencial cognitivo, interativo e multimodal, como recurso pedagógico, meio de comunicação e de divulgação de conhecimento na era da informática. (DIAS, 1999, p. 276) O paradigma da hipermídia pode ser ampliado para vários tipos tradicionais de sistemas de gerenciamento de informação, apesar de ser mais adequado para: documentação "on-line", enciclopédias eletrônicas, sistemas de aprendizagem, sistemas de suporte à decisões, sistemas colaborativos. Sendo uma tecnologia relativamente nova, possui ainda um grande potencial a ser explorado, principalmente na área educacional. É importante ressaltar que para se obter os resultados esperados, não basta a transposição simples do material didático de aulas presenciais para o formato de hipertexto. O design do sistema hipermídia deve se basear no perfil cognitivo do público alvo e principalmente na adequação da ferramenta aos resultados de aprendizagem esperados. O projeto de conteúdos hipermídia requer habilidades adicionais dos autores. Como esta atividade estabelece um novo paradigma, o da não linearidade, torna-se necessário aprender a lidar com as redes hipermidiáticas, incorporando a tecnologia na produção de conhecimento ou materiais didáticos adequados a uma nova maneira de pensar, que converge para a interdisciplinaridade e a interatividade. | ||
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| Depois da criação da interface Web, os sonhos de Bush, Engelbart e Nelson, em disponibilizar um banco de dados universal onde todo conhecimento da humanidade estaria disponível, se tornou mais próximo da realização. Os avanços tecnológicos dos Sistemas Tutoriais Inteligentes integrados com Sistemas Hipermídia Adaptativos e a Web Semântica estimulam os esforços desenvolvidos para utilizar estas facilidades em projetos e implementações educacionais, que certamente transformarão a chamada sociedade da informação na sociedade do conhecimento. Como se pode notar esta tecnologia apresenta um vasto campo de pesquisas e desenvolvimentos a ser explorado na tentativa de delinear um caminho seguro para que a educação seja uma tarefa que cria oportunidades de aprendizagem autônomas permitindo ao aluno desenvolver capacidades cognitivas relativas ao trabalho intelectual, articulado com o mundo do trabalho e das relações sociais, tornando a escola um lugar de aprender a interpretar o mundo para poder transformá-lo, a partir do domínio de métodos e conteúdos que contribuirão para a emancipação humana, em uma sociedade cada vez mais mediada pelo conhecimento. Como a cada nova técnica apresentada, uma nova forma cultural surge, a ecologia cognitiva, como o estudo das dimensões técnicas e coletivas da cognição, conforme definição original de Pierre Lévy (1993), a hipermídia contribuirá para uma nova forma de representar o conhecimento e a maneira do homem representar o mundo. NOTAS *Mestranda em Ciência da Informação, Universidade Federal da Bahia 1 Um link é uma conexão feita entre os nodos de um hipertexto. REFERÊNCIAS BERNERS-LEE, Tim., et al. The world-wide web. In Communications of the ACM, 37 (8), 76-82. 1994. BUSH, Vannevar. As We May Think. Atlantic Monthly, n. 1, p. 101-108, July, 1945. Versão eletrônica em http://www.isg.sfu.ca/~duchier/misc/vbush CARLSON, Patricia. A. New Metaphors for Eletronic Text. 1991. CHAIBEN, Hamilton. Hipermídia na educação. Universidade Federal do Paraná. Versão eletrônica em http://www.cce.ufpr.br/~hamilton/hed/hed.htm CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. Editora Ática, 2002. DIAS, Cláudia A. Hipertexto: evolução e efeitos sociais. Ciência da Informação. Brasília, v.28, n.3, p. 269-277, set./dez. 1999. EKLUND, J. Cognitive models for structuring hypermedia and implications for learning from the world-wide web. Proceedings of the AusWeb95. The First Australian WorldWideWeb Conference, 1995. ELLIS, David. New horizons in information retrieval. London, Library Association Publising, 1990. | ||
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